domingo, 22 de janeiro de 2012

A carne do ventríloquo

O caso de Paulinho começou com um estranho hábito de comer lêndias e piolhos. Então lá estava aquele garoto coçando a cabeça com tanto vigor que chegava a deixar feridas. Ele puxava as lendias e as enfiava na boca com cabelo e tudo. Depois de um tempo, o comedor de piolhos acabava puxando as cascas que se formavam em seu couro capilar, decorrente das feridas e as comia também.
Ele se senta no restaurante sofisticado e pede pasta de aspargos para saborear. É uma reunião de negócios com dois sujeitos estranhos representantes de lojas de brinquedos. Um deles se senta com um boneco de ventriloquo sobre a mesa e o outro tem os braços e o pescoço presos por cordas suspensas no teto, é um marionete de carne.
Discutimos sobre a bolsa de valores e o Pib. O ventriloquo entende tudo sobre brinquedos. Também tem uma fraqueza por prostitutas negras. Ele vai bebendo todo o wisky que seu condutor pede. É impressionante. O sujeito pede uma dose de wisky com soda e quando o garçom deposita a bebida em cima da mesa, o boneco agarra o copo e vira tudo de uma vez. Depois ele manda o seu condutor pedir mais uma dose e calar a boca.
A medida que o boneco vai ficando bêbado ele começa afalar que na verdade odeia a indústria de brinquedos e que o plástic o está deixando broxa. Ele enrola a língua e fuma cigarro. Seu condutor, se é que pode ser assim chamado, fica a reunião inteira quieto com seu braço enfiado no cu do boneco. Ele apenas come uns espetinhos de carne e pede bebidas.
O boneco está totalmente alterado, se diz um gênio do Busines e fala que já comeu mais de mil mulheres. Ele também fala que é um grande torcedor do Fluminense e em sua mansão no Joá tem um quadro estilo vitoriano do Renato Gaucho. Paulinho e o marionete ficam apenas observando enquanto o boneco fala sem parar.
- É que vocês sabem. Eu sou o cara. Eu mando nessa cidade. Rio de janeiro? Ha...? Eu quero esculachar. Eu sou o cara. Vocês tinham que ver. Já fui casado nove vezes.
Chega o prato principal e o marionete fica meio desajeitado com o talheres. O garçom percebe o desconforto e pergunta se ele deseja que alguém lhe dê de comer. O marionete aceita e o garçom se retira.
O boneco continua a falar apontando para seu condutor :
- Ele aqui. Não faz nada. Fica ai que nem mosca morta com o dedo enfiado no meu cú. Não é fácil ser boneco de ventríloco não. Eu sou impulsivo, eu sou a má consciência desse imbecil. Eu sou o cara que arrisca nosso patrimonio, e o cara tem a intuição para os negócios. Ele apenas assina os contratos e preenche os cheques. Não é verdade Leopardo?
Leopardo fala sua primeira frase da reunião:
- É verdade.
- Eu estou dizendo para vocês. É batata. Um milhão, dois milhões, trinta milhões, tinha que ver quando eu não tinha nada. Era apenas uma alma vagando pelos becos dos suburbios. Nem essa merda de corpo de pano eu tinha. Ganhava dinheiro apertando baseados para um traficante que não tinha mãos.
Nesse momento uma mulher muito elegante aparece do outro lado do salão. Todos ollham para ela impecável. Seu decote reluzente como uma armadilha que mantém os espíritos presos entre os dois mundos. Seus olhos verdes ligeiramente puxados como uma gata japonesa que impede as almas de evoluirem eu seu ciclo natural. Magra e de porte muito fino ela dá uma tragada em sua cigarrilha e vai andando em direção a mesa onde está acontecendo a reunião. - Caralho que gostosa! Diz o boneco.
Na mesa de trás, um senhor se levanta para receber a moça. Deve ser seu pai. Com certeza é o pai da mulher sim. A poucos minutos eles falavam sobre uma comemoração de setenta anos da família. A japonesa armadilha de espíritos era a filha mais nova.
O boneco fica mesmerizado com o desfile da jovem:
- Que é isso? Estamos no Fashion week agora? Olha o porte dessa moça. Quero comer ela.
Leopardo, o condutor de carne fica aparentemente nervoso, ele já conhece seu patrão e sabe como isso vai terminar. O marionete continua se enrolando com os talheres. Paulinho aproveita o momento de distração dos sócios para puxar uma casquinha da cabeça e a enfia direto na boca.
- Ei gostosa, quer assistir as corridas de cavalos comigo amanhã no Jockei?
A garota ignora o boneco de pano que fica falando palavras sem sentido com língua enrolada. Ela apenas da uma risadinha discreta e vai se juntar aos seus parentes na mesa de trás.
O condutor fica aliviado. Geralmente é ele quem tem que resolver as merdas que seu boneco de ventríloquo faz.
- Mas me diga senhor Paulo. Como vamos fazer para evitar que os lagartos engulam os bonecos. Os prejuízos gerados pelos acidentes vão nos custar uma fortuna.
Uma segunda mulher vem andando na direção da mesa. Ela foi encomendada pelo garçom para dar de comer ao marionete. A moça também é bastante atraente, usa um avental que a faz ficar parecendo com uma enfermeira de filme pornô. O boneco de ventriloco fica babando os peitos dela enquanto o Marionete tenta conciliar o seu apetite com a sua ereção. Necessidades da natureza humana que são antagonistas entre sí.
O ventríloco fica oferecendo jóias e carros para a moça que enfia a colher na boca do Marionete. Esse boneco verde e decadente é persistente:
- Sabe boneca, eu gosto mesmo é da Golden Shouwer. Você pode mijar na minha cara a noite inteira que meu condutor de carne não se incomoda. Você é daquelas que tem caninos brancos na vagina? Adoro caninos brancos na vagina, sabe? Pum Pum, tá tá, Pow! Entende? Eu quero esculachar!
Marionete constrangido com o comportamento do sócio, concentra-se em Paulo que tenta ser discreto ao tirar uma lendia de trás da orelha e come-la. Marionete fica sem palavras. Com a cortesia de um lord inglês ele finge que nada daquilo está acontecendo:
- O que você está comendo Paulo?
- Piolhos...
Os dois ficam se olhando como se fossem dois pistoleiros do deserto, porém, um pouco mais apáticos que Billy the Kid.
- Eu me referia ao prato que você escolheu no menu.
- Há... Sopa. Eu gosto de sopa... para lagartos.
A mulher gostosa enfia um garfo com um pedaço de vitela na boca do Marionete. O movimento deixa sua boca suja e ela se apressa em limpa-lo com um guardanapo. O ventríloco aperta sua bunda. Ela lança um olhar sacana para o condutor de carne. Será que as pessoas sabem que ele é uma coisa e o boneco é outra? A mulher se senta amassando o boneco que apertava sua bunda. A cena fica um pouco grotesca. Um homem com a mão enfiada na bunda de um boneco que está enfiado na bunda de uma mulher, que enfia uma colher de arroz na boca de um outro homem que está pendurado no teto.
- Mais um Wisky Por favor.
Quando todos se recompoem, o boneco volta para mesa, com um de seus olhos saltado para fora.
- Merda, essa puta me amassou com sua bunda enorme.
- Puta não oh bonequinho. Olha o respeito comigo. Eu estou super aturando suas escatologias e brincadeiras de mal gosto.
- Desculpa. Desculpa.
O wisky chega e o boneco bebe. Ele se engasga e o cheiro de álcool sai pela cavidade do seu olho saltado. Fica falando sózinho coisas sem sentido. O condutor se aproxima da moça e fala discretamente:
- Mais umas duas dessas e ele dá PT.
- Graças a deus.
Mas o boneco tinha outros planos.
- William, me leve até o banheiro. Preciso vomitar. A noite ainda será muito longa.
William se levanta e os dois vão andando até o banheiro. O boneco alucinado sai falando com todo mundo. Todos os homens ele chama de filho da puta e todas as mulheres e chama de gostosa.
- Você trouxe o meu viagra, William?
- Sim senhor.
- Ótimo! Essa noite eu quero esculachar!

O negócio é fechado com sucesso.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Como nascem os anjos (Pt1)



Em tudo nessa vida, é necessário que se encontre um ponto de estabilidade psíquica ou espiritual. Para se atingir esse tipo de insight é preciso ter a mesma precisão de um médico ao realizar uma cirurgia, é necessário estar sempre atento para captar aquilo. Seja escovando os dentes, ouvindo música, dirigindo seu carro ou trepando, aquilo não acontecerá se você não estiver prestando atenção. Muitas coisas acontecem quando estamos desatentos, a vida é cheia de coisas, mas para captar aquilo é necessário estar constantemente olhando para dentro de si.
Falaremos aqui sobre o adestramento, a capacidade de subjacente a um sintoma encontrar uma idéia fixada e obsessiva de si. Os testes com a nova substancia ZKY-12 nos permitiram observar que com o uso diário da substancia mais o seus efeitos que chamamos de reforços positivos, como liberação de serotonina, dopamina, noradrenalina, o individuo R. foi condicionado a acreditar que não é apenas “um” indivíduo.

Se masturbar, é como fazer qualquer tipo de exercício. Seja malhar, meditar, ou treinar artes marciais, deve ser sempre praticado com muita disciplina. Conheço um cara que tomou tanta bomba que teve tumores nos bíceps, e seus testículos estouraram.
...E então, eu gozo. Uma onda de adrenalina misturada co serotonina toma conta do meu corpo que fica a se debater espasmodicamente. O caralho fica entumecido com uma marca roxa, os sentidos estouram como fogos de artifício se espandindo para alem do estagio consciente as pupilas se dilatam o peito se enche de ar sou capaz de distinguir no tapete o odor dos restos de comida no chão misturados a outras gozadas alhures e água sanitária. Me jogo na cama e fecho os olhos, no canto dos ouvidos posso ouvir da casa de um dos muitos vizinhos os uivos melancólicos de um cachorrinho.

A disciplina da carne deve ser exercida diariamente e somente quarenta minutos por dia, mais do que isso seria um disperdicio de energia física e psíquica e conseqüentemente suas células começariam a morrer.

Um jovem de cerca de vinte e sete anos se levanta de sua cadeira, e conta sua historia triste. Rafinha tem tatuagem nos braços e usa boné, conta que ficou tetraplégico, não conseguia mais andar, não conseguia mais trepar, seus amigos não o viam mais, ninguém mais ouviu falar de Rafinha, e ele virou um bêbado da rua augusta.
- Meu, eu passava o dia inteiro com com a minha cerveja heiniken keg Holanda e um maço de Marlboro na mão ouvindo umas mp3 do Led Zeppelin.
Na TV, inter de Milão e Manchester empatam. Um viciado em cocaína chamado Rony chora quando sai do banheiro e se depara com a face da decadência humana; Um puteiro regado de japonesas extraviadas de um curso de sushi por proxenetas do bairro da liberdade, um bêbado entorpecido de Viagra caído no chão com o pau duro pede uma ambulância e todos, principalmente a menina que estava com ele tocam suas vidas como se nada acontecesse, um tetraplégico assistindo um jogo de futebol na televisão com uma figura que aparentemente sofre de elefantíase no rosto. O traficante local foi preso na semana passada, e nessa sexta feira muita coisa mudou ali na balada. Ninguém precisa se olhar para saber, e mesmo que fosse preciso um contato visual para perceber a atmosfera ninguém olharia para a dupla que assiste ao jogo, pois eles são a face da estagnação humana, uma estrela cadente que caiu cedo demais, ou um homem que fez a oferenda errada a um semi-deus.Em algum lugar, provavelmente no juic Box, toca “Stairway to heaven”

_ “Theres a feeling i get when i look to the West
And my spirit is crying for leaving
In my thoughts I have seen rings of smoke through the trees
And the voices of those who stand looking

Ha um seminário na Usp de São Paulo sobre o caso de como Rafinha voltou a andar. Um professor de parapsicologia disserta sobre o caso em um auditório de cerca de duzentos estudantes.
Ele queria uma coisa da vida, meu corpo queria outra. Como resolver essa equação carnal? Como fazer para curar essa doença terrível do espírito? Ninguém sabe ao certo como, mas Rafinha voltou a andar. Com uma dieta de comida vegetariana, sucos de fotosíntese e maconha, um dia ele voltou a andar. Todos nós sabemos o que aconteceu. Ele encontrou aquilo. Alguns dizem que um dia foi a uma banca de jornal comprar uma revista pornô, e leu na contracapa um anuncio de um curso de kama Sutra. As aulas eram dadas por um iniciado de sexualidade meio duvidoso metade índio metade árabe, que lhe ensinou as palavras mágicas e as disciplinas do corpo para despertar Kundalini, a serpente d’água, malte de cevada, lúpulo, e levedura A.

domingo, 13 de novembro de 2011

Kayne west; A maior farsa do show business

Na pior das hipóteses, não é possível confiar em uma só palavra que esse cara diz. Como isso foi acontecer? Ontem fui ao primeiro dia do SWU na cidade de Paulínia (Não sei exatamente por que eu fui nesse dia, provavelmente para prestigiar os meus amigos da Groove) e me deparei com o show desse cara, que segundo suas próprias palavras, se considera uma figura bíblica, possívelmente também uma figura pagã, um Semi Deus. De fato, seus crimes contra os direitos autorais de outros artistas póstumos e seus delírios megalomaníacos fazem desse homem de 34 anos se comportar como um sátiro.
O dia começou estranho. Muito estranho. Caminhando pelas ruas de São Paulo, topei com uma sujeito discreto, óculos escuros e chapéu coco que por muito pouco não esbarrou no meu ombro. Era o Ringo Star. Legal, pensei, acabo de cruzar um homem que seguindo por esse mundo sem raízes dividiu longas horas de sua vida com John Lenon. Eu, um cara errante, cheio de energia acumulada que poderia muito bem estar bêbado a essa hora do dia, tropeçar em cima dele e ter todos os meus dentes esparramados no chão pela frota de seguranças que escoltavam o Beatle menos reconhecido.
A noite, já no festival, outra baterista importante em linha cruzada com a minha vida, o do System of a down. Esse, eu tive a oportunidade de comprimenta-lo, mas... como as pessoas importantes não querem saber de mim, ele nada fez além de falar um bando de piadinhas sem graça e ficar babando sobre os peitos da minha namorada. Esses caras são de outra raça. Steve Jobses, Ringo Stares, John Lenons, Kayne Westes, bateristas do SOAD. Mas se por outro lado, eu me der o luxo de pensar e refletir que esse cara também deve ter um nome, e eu apenas sei que ele toca bateria ... Isso torna justa a situação.
Após uma longa batalha contra antigos espíritos do mal e amuletos vodus consegui chegar a tenda aonde me foi possível entrar em contato com a quinta essência da arte que é a música do Kayne.
Algo confirmou que meus instintos estavam certos quando, toda vez que eu ouvia esse cara cantando com aquele autotune infernal, eu pensava em merda. Dessa forma, lá fui eu, rumo a um horizonte desconhecido assistir a apresentação, para, ao menos, ter uma opinião precisa quando for dizer algo sobre Kayne West, um homem de 34 anos, que segundo suas próprias palavrasdespreparadas afirma que, se a bíblia tivesse sido escrita hoje, seu nome certamente seria mencionado nela.
O cenário do palco é o seguinte; Uma imagem em estilo clássico com diversas figuras angelicais e mitológicas todas embrenhadas como que para saudar o homem ali se apresenta e fica duas horas cantando sobre os nomes que ele dá para suas armas, os apelidos que ele dá para suas namoradas, o flerte com a menina na festa de ontem a noite em Los Angeles, os carros que tem e que pretende comprar e roupas da Nike que brilham no escuro. Tudo tem a ver com a o fundo de palco barroco. Eu disse cantar? Não sei por que tive a impressão que quando eram utilizados aqueles efeitos de voz tratava-se de um playback. Antes dele aparecer no palco, um coro ensurdecedor de anjos seguidos por um som de órgão sintetizado no volume máximo, sugeriam o renascimento do Nosso Senhor. Algo épico. Para aquelas almas que acreditam nesse homem, o Sublime.
Ali, no meio daquela gente, entre Bibis e Betos Lees, me sentia uma ovelha negra. As roupas do pública brilhavam. As minhas e as da minha trupe eram todas escuras. " Não vai demorar muito para que percebam isso e matem um de nós" eu disse para o Magrão. Então o Kayne West seguiu cantando coisas que eu não conseguia identificar e como a cerveja estava muito agradável, e liberada, fui ficando mais animado e otimista. Então uma pausa dramática e a apresentação volta com nada mais nada menos que a música do Queen. O dj executa "we will rock you"' em tempo integral enquanto o ídolo fica parado de frente para a multidão com algo de arrogante no rosto captando as vibrações. O público? O público naturalmente que foi ao delírio. Você está no meio de 60.000 pessoas e toca aquela batida do Queen com a voz angelical do velho Fred cantando a todo o vapor, quem não vai entrar em transe? Quem não vai gostar? Quero dizer, ou esse Kayne West é jovem inteligente ou um farsante veterano, pois "What da Fuck" tem a música dele em comum com a do Fred Mercury? Para começar que esse cara deve ser homofóbico, como a maioria dos rapers americanos são. O povo fica louco. E não adianta dizer que é o mal dos trópicos. Não. O povo fica louco pelo mundo afora com essa incoerência.
Pra fechar com chave de ouro perto do final, outra pausa dramática e... o Dj ataca com "Chariot of Fire" sabe aquela música que se tornou um símbolo de esperança e equidade para as pessoas portadoras de necessídades especiais. Uma música composta por Vangelis, um sujeito pioneiro no new wave e na música experimental entre os anos 70/80. Será que o cidadão Kayne realmente gosta desse experimentalismo quase erudito do Vangelis? Talvez ele esteja mais interessado em ser visto pelos olhos do mundo como uma semiótica do sentimentalismo e de esperança, mal que, segundo os gregos permaneceu aprisionado na caixa de Pandora. Para melhorar, rolou um balé enquanto tocava a música e ele ficava olhando para as dançarinas com um misto de ignorância e confiança no rosto. Dentro de meu sarcasmo, e de minha cerveja, fiquei imaginando um balé de cadeirantes todos rodopiando e derrapando em meio ao Jesus Cristo negro que no final estendem juntos suas mãos para o céu, e milagre, os cadeirantes se levantam, chutam suas cadeiras velhas e começam a dançar Break em torno do Messias da música pop.
Na moral, esse cara é a maior farsa que eu já tive a oportunidade de assistir no Show Business. E quem acredita nele, porra, francamente... Nota do show 1.5

Show - 0.0
repertório - 0.5
Comportamento (0 meu) 8.0
Cerveja - 10

sábado, 5 de novembro de 2011

reminiscências,a fita da morte (pt1)

Fui tomado ontem a noite por um assombro enorme que contagiou a tudo em minha volta. Estava eu a selecionar umas velhas fitas de vídeos, e acabei encontrando mais material do que eu julgo ser possível assistir. Um jovem com um martelo esmaga a cabeça da namorada ciumenta. Adolescentes resignados em sua juventude plástica picando gatinhos. Um por do sol agressivo e o enviado das trevas a me perseguir.
Eram fitas velhas e desconexas, que eu julgava estarem totalmente mofadas ou destruídas pelo tempo, mas não. E ontem a noite eu tive o desprazer nostálgico de, mais uma vez, me deparar intensamente com o passado. Primeiro de tudo, não preciso nem mencionar o Anjo Negro. Aquele que desde o dia em que veio me visitar pela primeira vez, se instalou em minha alma, viveu a minha vida e morou na minha casa. Ele pode ser visto na maioria das filmagens. Discretamente, languidamente. Pelos cantos dos enquadramentos. Mas sempre lá. São muitas informações. A um vórtice no tempo e um buraco nas trevas. Eu fui tragado pelos dois.
Parei a fita. Desci as escadas e peguei uma garrafa de vinho. Vai ser necessário uma ou duas dessas para suportar essa estranha viagem ao passado. Essa insólita volta aquele período tão desagradável que é a adolescência. Insuportável pensar no que eu já fui um dia. Um adolescente sórdido com espinhas na cara, maneirismos estereotipados de fala, e uma máscara de insegurança estampada no rosto. Uma enorme máscara de carnaval com plumas de pavão escrito em neon azul; " Eu sou uma colcha de retalhos! Eu sou inseguro, sou volúvel como uma borboleta. Eu não sou nada, eu não sou ninguém". E logo na sequência tem uma imagem minha com quinze anos dizendo; " Enterrem meus órgãos no quintal". O que eu estava dizendo?
É estranho. Eu fui o último dos meus amigos a beijar, mas deveria, na verdade ter sido o último dos meus amigos a transar. Coisa que não aconteceu. E atribuo a e pular de fases, muitos dos meus infotunios e complexos na vida sexual. É estranho mergulhar no passado. Alguém tem uma ácido derretendo entre os dentes. Pequenos adolescentes com os olhos vidrados coversam frenéticamente enquanto fuma pilhas de maços de cigarros e as ovas dos peixes amassadas deixando os dedos amarelos e com um cheiro bolorento que vem da merda grudada no tênis. " Porra. eu pisei no coco do cachorro" diz alguém e os olhos vidrados da juventude transviada se voltam para a escuridão.
Nesse ponto novamente parei a fita. Um pouco nova demais aquela meninice toda com todas aquelas substâncias escorrendo pela superfície do rosto. Garotos de doze anos se bulinando e fumando maconha em um baile de fantasias improvisado na garagem. Um sapo, um aventureiro do bairro proibido, um vaqueiro e um Mc de funk. Totalmente transfigurados os rostos aparentam traços de metamorfose, insegurança, transubstanciação e homosexualidade. Mas como já diria Freud; " Todos os seres humanos até os doze anos de idade é potencialmente bissexual. Levando em conta que filmagem a molecada tinha exatamente doze anos, posso dizer que essa foi na trave. Cada moleque, um pendurado em cima do outro, bebendo, vomitando, dançando e insinuando coreografias que poderiam muito bem sugerir um ato sexual. ( para os especialistas). Mulheres? não havia nenhuma. Não. Elas eram boas de mais para a gente. Especialmente para mim. Porra. Entrar em contato com esse filme infernal, apalpei as mãos nas costas e senti a raiz das asas negras que fui forçado a arrancar na adolescência. Relembrei em 5.0 Hd o sofrimento que foi ter a minha juventude perdida, ver as portas do paraiso se fechando por causa das mulheres. Eu fui totalmente desprezado pelo sexo feminino em minha mocidade. O neon que eu carregava em minha aura avermelhada dizia em letras maiúsculas; " Ele nunca beijou na boca". De fato isso demorou para acontecer. E quando aconteceu, foi com uma mulher três vezes a minha idade e três vezes o meu peso. Que deus a tenha pois eu sei que ela morreu Sofreu um acidente. Houve muita baba e muitas mentiras nesse dia, pois eu disse que tinha uma namorada. Não sei por que menti. Talvez por que ela era muito feia e eu não queria repetir a experiência.
Ser adolescente foi terrível mesmo. Vejo moleques de quinze anos andando de bicicleta na rua, acompanhados de suas namoradas queimadas de sol e me pergunto se eu tivesse sido um deles, como seria minha vida hoje? No meu caso, não houve muita resistência. Desde cedo percebi que minha mocidade estava resignada ao desamparo e frustração. Não precisei ter um olho clínico para me olhando identificar que eu era um daqueles que possui a marca. A marca dos errantes. A marca lembrava uma cicatriz. E mesmo constantemente rejeitado pelas mulheres e posteriormente rejeitado pelos amigos eu ficava parado de frente para o espelho a contemplar minha marca de Caim. No meu íntimo eu sabia que aquilo tudo era apenas uma fase, e que em breve tudo iria mudar. Eu iria me tornar um homem. Um homem que possuia a marca no rosto. A marca que mais lembrava uma cicatriz, um corte.
O vídeo me fez lembrar de coisas que não aconteceram nunca, e eu fiz questão de esquecer tudo. A luz parece escura e a escuridão se fez tão clara. Parei de assistir a fita no momento em que começaram os caseiros filmes de terror. " A anatomia do terror". "A psicologia do medo". " O fracasso em tentar ser como os demais". Fui acometido por tantas que isso renderia até um outro post. Nesse momento, vou abrir outra garrafa de vinho, aquela que tem um capeta estampado no rótulo e continuar minha jornada lunar de encontro as trevas do passado.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Show do Sepultura, Andreas, Derick e outros monstros bíblicos

Maldita estava fazendo apresentações pelos bares do sul (aonde as mulheres são mortas como criaturas inúteis ao mundo quando ultrapassam a idade de procriar) quando ficamos sabendo que o Sepultura iria se apresentar no domingo. Entramos em contato com o Andreas Kisser e ele nos liberou entradas para a banda e a nossa equipe. Em agradecimento fiquei de levar um presente para ele que iria lhe entregar após o show. Nada demais, apenas uma lembrancinha.
No meio do caminho parei para comprar cerveja e enchi o saco de Heineken. Chegando no local, encontrei com nosso fã e grande amigo Adson. Tomamos mais umas três ou quatro cervejas do lado de fora enquanto observávamos a enorme fila, inteira de preto que também embriagados, seja de álcool, ou seja de emoção ficavam berrando "Sepultura! Sepeltura" nos portões. Na sequencia chegou o Stanley ( que além de produzir o Nero, produziu também o Dante e o Alex do S.) e foi muito bom reencontrar. Stanley nos últimos anos foi como um professor para mim na arte de gravações de estúdio, e foi no período em que ele esteve na minha casa que aprendi a usar o programa logic, e gravei músicas da Contra produções como "Possuído (Willian Blake Megamix)" e "Samsara". Material que quem sabe um dia eu lanço na net.
Abertos os portões, entramos e entre uma cerveja e outra ouvia-se o vocalista do Angra cantar músicas medievais com alguma outra banda que não me recordo o nome agora. Acho que ele cantava algo sobre uma princesa e um dragão, e devia ter uma bruxa na história também.
Quando o Sepultura entrou, eu já estava bêbado, e foi muito bom assistir o show assim. Para começar, que o som dos caras estava muito bom, redondinho. ( Nosso amigo Stanley/Sabirila não brinca em serviço). Até meu pai conseguiria compreender os temas de guitarra do Andreas e as palavras do Derick, de tão "Clean" que estavam as frequências sonoras. Isso me fez lembrar da vez em que assistimos aos caras abrindo para o Deftones no Maquinária, e como era discrepante a qualidade do som do Sepultura que literalmente engoliu os gringos. O deftones que é uma banda que eu gosto muito, fez um showzinho que deixou muito a desejar, especialmente após o S. que pelo visto, sempre tira um puta som. Fiquei sabendo posteriormente que o erro foi do técnico dos caras que acabou sendo demitido. Ponto para o "Brazil", nosso amigo Stanley responsável pelo som também não para de acumular pontos.
Eu não parava de beber com o Adson e me lembro de berrar como um Tarrasque (http://www.dotd.com/mm/MM00281.htm) deve berrar quando eles tocaram Territory, minha música preferida, e que me fez lembrar da vez em que o Andreas tocou essa música com a Maldita na rocinha ( http://www.youtube.com/watch?v=znpcsinqjv4) convenhamos que esse é o desejo de todas as bandas de som pesado do país. Além de que o Andreas é o cara mais responsa/Sangue bom/irado, qualquer coisa que o diga de todo o showbusines que eu já conheci. Humildade não seria a palavra certa para descreve-lo. O cara cara é FODA mesmo.
Eles encerraram o show com "Roots" e fiquei sentindo falta de uma música chamada "Óstia" que tem uns violinos no meio e geralmente quando a estou ouvindo, sou transportado para outro lugar. Resumindo, o show foi muito bom. Quando terminou, eu estava alucinado. Bem doido mesmo e então nós fomos ao camarim dar um "oi" para os caras.
Chegando no camarim eu estava trôpego e esbarrava nos obstáculos pelo caminho. Alguém me indicou aonde era o caminho e fui reconhecer depois em imagens de um sonho distante que era a Monica Cavalera. Dentro do camarim tinha uma modesta mesa de frios e tudo o que consegui fazer foi ficar comendo. Minha cabeça girava e o sal dos pepinos que comia me ajudava a manter o equilíbrio, também tinha mais bebida por lá. Dei uma abraço no Fumaça (Derick) e entreguei o presente do Andreas. Enfiei mais um daqueles salgados na boca e sai fora de lá pois a luz era muito fria e opressora. Gostaria de ter dito alguma coisa mais construtiva para a banda, mas as palavras não me vinham ou saiam a boca. Na volta tropecei em alguma coisa, não me lembro o que, acho que pisei no pé do segurança manchando de vomito seu sapato novo, e missão comprida eu estava novamente junto a multidão que é um lugar mais familiar para mim. Ia começar o show da última banda "MachineHead" Não aguentei. Assistimos três ou quatro músicas e fomos embora pela porta da frente.
É por essas e outras que a nota desse grande evento foi 8.5


Show ; 8.0
Repertório ; 7.0
Comportamento ; 7.0 (mesmo eu estando como estava fiquei totalmente na moral)
Contato com a banda ; 4.5 (Não foi culpa dos caras, e sim minha e de minha subjetividade monstruosa e opressora).

Total 8.5

No caminho de volta, fiquei traçando analogias entre o Derick e o Tarrasque. Muito parecidos!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Eric Clapton


Nessa segunda feira fui ao HSBC Arena no Maldito Rio de Janeiro assistir ao show do grande tiozão do Rock, Eric Clapton. Em primeiro lugar, dos milhares de shows que tenho ido ultimamente, nunca tinha acontecido de eu chegar atrasado, porém, devido a um erro na logística dos organizadores, ou da incapacidade que o carioca, de um modo geral, tem de se organizar peguei um trânsito de cerca de três horas para chegar nesse lúgubre e descampado Maldito lugar. O HSBC Arena fica nas proximidades de onde foi também o caótico Rock 'n Rio. Não me senti bem faltando o respeito com o Sir. Eric, cheguei lá para a quinta música, mas, cést la vie.
O show foi muito bom, o "tio"tocando guitarra é realmente hipnotizante. Temas diferentes e andamentos inusitados nas músicas mais conhecidas tornam tudo uma surpresa. A clássica "Layla" por exemplo, foi tocada em ritmo de uma marcha fúnebre. Eu gostei. É o tipo de show que faz a gente se sentir parte de algo maior. Algo que veio do espaço e atingiu os negros que moravam no mississipi Nova Orleans quando desenvolveram o Blues. Furtivamente sai correndo para comprar uma cerveja e, pronto. O show ficou ainda melhor, a atmosfera de "tios" (acima dos 45 anos) e dos sobrinhos (abaixo de 45 anos) cantando "Cocaine" foi envolvente. O show era sentado, porém o brasileiro que é mal educado por natureza não gosta disso, então tinha sempre alguém levantando (inclusive eu) e o segurança mandando sentar. Na última música todas as 25 mil pessoas se levantaram e foram para a frente do palco. Tio Eric Clapton que hoje em dia trocou a calça jeans por um confortável moleton deve ter gostado dessa atitude tão "Brasileira" de ser.
A predominância do público era acima dos 45, e foi divertido acompanha-los cantando para suas esposas "Before you acuse me, take a look at your self" algo que dever querer dizer a trinta anos, mas não podem devido ao convencionalismo do matrimônio. vimos também um senhor com a cabeça toda branca, deveria ter seus quase setenta anos virar para a mulher e dizer "Agora espera amor, que eu vou lá no banheiro cheirar o meu "Cocaine". Sensacional. Essa geração viveu coisas a minha não chegará perto nem eu seus maiores devaneios. Eric Clapton é um símbolo dessa geração.
Após minha segunda e última cerveja da noite fiquei me sentindo em um desses enormes salões de festas ou de jogos. Todos falavam meu nome; Eric para lá e para cá. Fiquei meio tonto, nunca tinha estado em um grande show aonde o nome do grande artista fosse o mesmo que o meu. Você já esteve? No final eles tocaram uma música do Cream e a multidão (de todas as idades) se levantou e resolveu invadir, quero dizer, assistir, o ídolo de perto. Eu me estressei com o segurança que se estressou comigo e assim desenvolvemos nossa recíproca relação.
Em resumo, o show foi muito agradável. o ambiente era pacífico, o público diferente, e o Eric Clapton estava demais. Sua voz ( para quem sofreu durante quase meio século do mal que se detém sobre nós que é o alcoolismo e o vício em heroína) é clara como cristal. Seus solos de guitarra são libertadores. A sua gig; Um pianista, um tecladista, duas cantoras e o baixista e demais agradável. Um tipico programa para se fazer com a família, voltar para casa, tomar uma dose de Wisky e dormir bem.

Show 8.0
Repertório 8.0
Organização 7.5
comportamento 10.0

Nota do evento 8.0

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ontem, Limbo no Baixo Gávea

Os portais do inferno, eu já os deixei abertos desde a hora em que sai de casa ontem as 19:00. Geralmente quando isso acontece e eu saio cedo assim, me torno vulnerável a qualquer tipo de má aventurança.
Com uma caminhada enérgica após um dia bastante saudável, eu cheguei rápido ao bucólico Baixo Gávea para encontrar o Léo, antigo tecladista da Maldita. Comemos uma Pizza, e pore u ter deixado as portas do inferno abertas, bebemos desenfreadamente. O mal do homem, e o meu meu mal é a bebida. Não ha no mundo nada que te deixe mais alegre e mais sucetível a vivenciar uma antiga tragédia greaga que a bebida.
O telefone toca e além do Lereu que também está com a gente, o meu advogado está chegando.
Conversas hebefrênicas como a de uma criança retardada em torno do show do System of a down, guardiões de portais do inferno incitando a multidão. Calígula tinha um cavalo chamado Incitatus, ele também estava lá. Cervejas e mais cervejas e cigarros e um gusto de merda na boca que certamente durará. Fala desenfreada, maneirismos e logorréias, me tornando uma caricatura de mim mesmo. Confusão? Alguém falou torto comigo? Era eu mesmo me mijando no banheiro. Conversas sem nexo sobre o Rock n Rio. Dor e frustração. O olho negro do mal marcando junto de mim e me observando cada passo, cada movimento, cada palavra.
Não me lembro como cheguei em casa. Só sei que cheguei. Hoje de manhã um bilhete. “Você deixou o gás ligado. Podia ter matado a todos nós”. Creio que foi dali que os demonios sairam. Do gás da cozinha, tubulações tão rústicas e das profundezas que chegam a fazer conexão com o inferno. Uma linha expressa do metro. Primeira estação Pandora, depois Tenebras, salta, faz uma baldeação no Limbo, pega para Malebolgia, depois para minha cabeça e possívelmente para minha morte.
Acordo 10:30 da manhã com o telefone tocando. É o Vidaut dizendo que vamos antecipar nossa gravação hoje as 15:00. Gravaçao do novo projeto da banda. Um projeto que se chama montagem por que ele é uma montagem de sons. Pego um copo de água, jogo uns comprimidos para dentro e me lembro dos Ramones que um dia cantaram “Hey How let’s go!”. Também lembro do cemitério e do dia da minha morte. Um pedaço da minha alma ainda está lá no baixo gávea sendo varrido pelo lixeiro junto com as garrafas de vidro e os flyers de eventos. Coisas que não consigo me lembrar. Alguém vai fazer um Vernisage hoje, mas acho que derrubei miha bebida no pé da namorada dele. Vozes do além me provocam, meu advogado diz que eu tenho que me movimentar, talvez seria melhor se eu começasse a fumar cigarros, ele me recomenda. Alguém grita no banheiro. O Lereu se atrasa.
É por essas e outras que a nota para a noite de ontem é 5.0

Biaxo gávea 5.0
Comportamento 5.5