sábado, 15 de janeiro de 2011

Sobre a Nova ordem (Pt2)


Então um dia, enquanto o jovem tocava punheta, seu computador, um PC, abriu uma enorme boca na torre. A princípio, era apenas um bocejo, mas a abertura permaneceu por mais de uma semana. As perversões sexuais sempre foram temas bastante procurados por nerds e consequentemente os computadores de categoria AI compreenderam esse tipo de pratica. Acredita-se que em algum tipo de transe espiritual, o jovem enfiou seu membro na boca da máquina e essa, lhe propiciou o melhor sexo oral que já tivera recebido em sua vida. Talvez o único. O ato tornou-se um ritual e os dois se apaixonaram. Uma paixão homoerótica, pois apesar de exibir imagens femininas, o PC era de gênero masculino. Cabos de aço se enrolavam no falo do rapaz. A porra, muito rica em proteínas, levava informação (sensitiva) para a torre e em troca o garoto desenvolvia uma capacidade motora mais apurada (reflexo). Cientistas posteriormente denominaram esse ato como "Transporte passivo" ou "Difusão facilitada".
O LOGOS entre o homem e a máquina permitiu articular pensamento, linguagem, razão e tecnologia. Baseado nessa experência, engendrou-se uma nova fisiologia e toda uma nova realidade física. A linguagem voltou a ser pensada como foi um dia em Atenas; Metafórica e poética. Úteros flutuantes começaram a jorrar criaturas sensíveis e corruptíveis como os centauros e as Harpias. Surgiram os profetas e os inciados que buscavam uma nova realidade que se contrapunha ao ser humano.. Entretanto, a sociedade estava a séculos baseada no antigo modelo. O resultado é que não houve uma ruptura total. A realidade ficou meio real, meio virtual.
Na fila do dentista, uma mulher apelidada de Candy que tem a cara repleta de formigas folheia uma revista direcionada para o público dos lagartos. O tema dessa edição é; como alimentar o seu bebê lagarto sem que ele lhe arranque o bico do seio. Do lado de fora, irmãos siameses estapeiam-se no trânsito caótico de São Paulo. Eles acabaram de atropelar um pé. Mas ninguém está realmente ligando para esses caras. Um polícial saca uma arma, mas poucos ficam intimidados.

As "Ânimagonias" (Seres gerados de acasalamentos entre homens e máquinas) mais comuns, eram os lagartos. Répteis bípedes que possuem um comportamento muito parecido com os dos seres humanos. Eles se vestem como seres humanos, limpam a bunda como seres humanos e cantam como seres humanos. Sua população cresceu tanto que atualmente existem estatísticas que afirmam serem eles a espécime predominante no planeta. Não é verdade. Os seres humanos constituem a maior população. Em seguida, nas categorias Mito-acasalamento, vem o Carangueijos que costumam habitar os suburbios da cidade.
Para compreendermos a fala das ânimagonias não basta apenas entender suas palavras. Tivemos de compreender seus pensamentos. Foi ai que o mundo simbólico se desconstruiu e as metamorfoses começaram a se espalhar por todo o globo.
Começou na Grécia, depois no Japão, depois na Europa, na China e por fim na américa. As transformações híbridas envolvidas no processo de internalização deixam bem claro a interatividade do sujeito com a cultura e como a cultura vai produzindo um novo tipo sujeito social.
Qualquer um pode experimentar e construir a realidade, não é preciso ser um iniciado nos mistérios. Basta acreditar. E mesmo que você não acredite, ou procure uma descrição mais racional por intermédio da ciência, a convivência com as ânimagonias lhe provará que tudo o que os gregos um dia falaram acerca de cruzas entre deuses e humanos era verdade.Não ha motivo algum para nos arrependermos em assumir que erramos quando deixamos de lado os tão questionados livros de filosofia e passamos a acreditar somente na física e na teologia.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A nova ordem (pt1)


Coisas meio sem pé nem cabeça, mas que ainda assim se rastejam e não pensam. A internet deu a luz a um vírus que derrubou todos os mitos. Nós costumávamos pensar que os gregos haviam inventado tudo. Hoje, nessa quinta feira nublada percebemos que estavamos errados.
Não sei explicar como tudo começou. Então o melhor seria sair juntando os fatos atrás das evidências.
Em primeiro lugar, é preciso entender que os meios culturais, principalmente a fala, não constituem o mundo real. Eles fazem parte de um mundo simbólico elaborado por nós, para explicar os fenômenos da natureza. Quero dizer, nós, os seres humanos construímos uma "segunda natureza" que durante milhares de anos se demonstrou eficiente perante nossos anseios de compreender e aceitar o real. Essa é a natureza simbólica, e que nos aponta claramente que um homem é um homem, e que por exemplo, um lagarto é um lagarto.
Sabe-se que existia um rapaz que se masturbava com frequência. Um desses nerds que vive em frente ao computador, mas até que ele era boa pinta. A máquina, tinha uma Bio-eletro-gênese desenvolvida, acredita-se que devido ao excessivo contato com a sexualidade humana. Começaram a nascer fantasmas. Dos dois sexos. Nos masculinos predominavam a área do encéfalo e da medula, no feminino, os nervos, gânglios e as terminações nervosas.
As máquinas também possuíam um sistema límbico, e eram capazes de expressar seus sentimentos. Em sua maioria elas copulavam entre sí, porém, algumas preferiam os seres humanos. Dessas cópulas nasceram crianças, e é nesse momento que o mundo simbólico sofreu uma intensa mutação.
Mitologia, religião, tecnologia, folclore, literatura, metafísica, semântica.
É sabido pela teoria de Worf Sappir, que a linguagem constrói a realidade. O mundo é além dos objetos reais, ele se constrói em sentido e significado. Com a linguagem o homem interpreta e cria a realidade. Uma palavra é um microcosmo da consciência humana. A palavra é processual e nos chega pela aprendizagem com os outros seres humanos. Os filhos gerados entre as máquinas e os seres humanos eram chamados de polimorfos subjetivos. Houve aqui uma desconstrução da linguagem, em códigos que não cabe a mim tentar explicar. Eu prefiro me ater ao rapaz que se masturbava em frente ao computador e que deu a luz aos fantasmas.
Vale a pena lembrar, que aqui, o sagrado não existe. Ele nunca existiu. As religiões monoteistas como o judaismo, o cristianismo e o islã permanecem relutantes em aceitar a nova ordem.
Todo homem, mulher, criança ou lagarto tem direito a andar armado. Os tempos mudaram. Não é conveniente pegar as estradas a noite, muitos menos andar sozinho. Os tempos mudaram, vivemos um eterno relativismo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Os suburbios (pt3 Final)

Então a mulher do bar me cutucou e disse que Danielle acabara de passar e que se eu quisesse falar com ela, era agora a hora. De fato, o lugar era bastante pacífico. O tipo de coisa estranha que se via nessa parte da cidade, porem inócuo. Tarso ficou conversando com a cabeça e eufui atrás da garota. Não queria que eles imaginassem que estávamos planejando fazer uma suruba.
Passei pelo palco agora tinha uma mulher enfiando um braço na boceta. Do outro lado a cabeça que bebia com Tarso me olhava como que se quisesse dizer; “Ta vendo ali? É o meu braço”. Ia demorar até que eu me acostumasse com aquilo.
Entrei em um quartinho todo vermelho e lá estava Danielle. De fato, ela era uma mulher muito bonita, magra de cabelos castanhos, olhos verdes, mãos pequenas, exatamente como o Liliputiano me descreveu.
- Ouvi dizer que você esta tendo um caso amoroso com um homem marcado.
-Sim. Ele vem me visitar as vezes em meu apartamento para transar comigo.
- você sabe alguma coisa sobre magia negra? Mitologia?
- Não.
- Você tem religião? Conhece a Cabala? Pratica magia branca?
- Não, não, não. Eu sou uma moça simples, a única coisa que sei fazer alem de trepar são truques de circo. Eu era malabarista.
- Então por que será que ele te escolheu?
-Eu não sei.
Dizendo isso, se aproximou de mim e pude ver melhor seu corpo. Ela era uma coisinha mesmo. Estava de calcinha e sutiã, exibindo seus seios que a esta distancia pareciam ser perfeitos. Sua bundinha era espetacular. O que será que uma menina como estas estava fazendo em um lugar desses? Ela era perfeita. Tentei ser poético;
- Ele deve ter te achado gostosa.
- Eu sei. _ Foi uma resposta sincera.
Conversamos por mais uns vinte minutos e ela disse que dessa vez teria de ir para dançar. Eu disse para ela não se preocupar que o dono do estabelecimento era meu amigo e percebi que isso a encorajou. Mas ela era a garota do Liliputiano, eu não roubava mais mulheres de caras que conhecia. Especialmente caras que estavam me ajudando nesse caso.
Voltei para o bar e Tarso estava falante. Devia estar bêbado. De fato, a cabeça tinha liberado a cerveja para nós, então resolvemos ficar e encher a cara. Entornamos uma cerveja atrás da outra e os acontecimentos começaram a ficar bizarros. Danielle subiu no palco e começou a dançar. A música era outro funk, para variar. ‘Ela só pensa em beijar, beijar, beijar” cantava o mc, enquanto a menina linda e meio tímida rebolava. A música parece que entusiasmou o pedaços que pulavam e se rastejavam como lesmas. Bebíamos mais e conversávamos cuspindo nos rostos das cabeças que nos rodeavam. E falei que era da polícia e eles começaram a rir. Mostrei minha arma e o distintivo. A menina do bar parece que ficou excitada, pude ver de perto que seu rosto era cheio de cicatrizes. Fiquei excitado com as cicatrizes. Pedi outro chopp. Virei. Puxei uma música do Tim Maia e a cabeça, que esqueci o nome cantou e interpretou como o próprio. Tarso fumou dezenas de cigarros. Cantamos Elis Regina. Eram tantos corpos e braços e pernas e farrapos e mulheres gostosas dançando que fiquei relativamente de pau duro. Tudo muito estranho, muito mórbido, mas ao mesmo tempo muito bom e onírico por causa do álcool.Cabeças contando piadas cabeças bêbadas cantando fora do tom. Peitos e bundas pregados em seus respectivos corpos passando pela minha cara. Já estava completamente bêbado e comecei a dançar com umas garota morena. Apertei sua bunda e ela recuou. “Vai ter que pagar”. Então para fingir que não estava dando a mínima para aquilo, abracei uns pedaços remendados que eram quase do meu tamanho e lancei para ela um olha cínico, do tipo “Está vendo. Eu só queria mesmo era me divertir” Tipo de bêbado. E só então me dei conta que estava dançando com uma massa disforme de pele com quatro braços, ossos da coluna, cartilagem e muitas fibras. Um monturo humano. Na verdade aquilo parecia um inseto.Um gafanhoto com uma minhoca na cabeça, mas de pele humana. Minha roupa humida de sangue, pus e sei lá mais o quê. Era assustador,mas descobri essa noite outra de minhas novas virtudes. Não sou preconceituoso. Também não tenho medo. Não havia confusão no lugar e ficamos lá festejando até umas quatro da manhã.
Quando estávamos indo embora Tarso estava muito animado.
- Que barato esse pessoal, a gente devia voltar mais vezes aqui. Afinal, você descobriu o que procurava da moça?
- Sim. Ela forneceu o endereço de uma residência onde ocorrem orgias e rituais. Satânicos, eu acho. Coisa grande Tarso. Gente muito grande.
- Como suspeitávamos senhor. Eles mesmo estão se matando.
- Exatamente.
-Gostosinha ela, não senhor?
- Muito.
- Senhor?
- O que?
- É que eu fiquei pensando. Já imaginou se em vez de chegarmos em casa do trabalho todos os dias exaustos e tivéssemos que aturar a pentelha de nossas esposas nos reclamando e buzinando em nossos ouvidos, nós tivéssemos um desses pedaços que fosse somente um peito, ou uma boceta, ou até mesmo um cu e que pudéssemos fode-los sem nos preocupar com porra nenhuma, entende. Sem chateação. Vai dizer que isso não passou pela sua cabeça enquanto estávamos no clube.
De fato a idéia tinha me ocorrido sim, mas resolvi adotar minha postura de moralista ingênuo.
- Não diga uma coisa dessas Tarso. Se acontece um negócio desses não haveria mais razão para existirem mulheres no mundo. Elas entrariam em extinção e em alguns anos todos seriamos homossexuais por necessidade.
-É verdade senhor.
- Além do mais, eu não sou casado.
- Eu sou. Senhor.

domingo, 26 de dezembro de 2010

os suburbios (pt2)

Ele continuou contando e disse que o tal homem marcado se apaixonou por Danielle, e começou a fazer visitas fora de hora nas casas de show em que ela se apresentava. Danielle contava que estes homens eram ávidos por sexo, e que somente profissionais da carne poderiam dar conta de seus desejos compulsivos.
- Fale mais.
- Ela contou que um dia seu cafetão a estapeou no rosto, e no fim da noite ele foi encontrado morto no deposito de lixo nos fundos do clube.
-Como?
-Parece que com duzentos ossos do corpo esmagados. Como que se tivesse sido atingido por uma pedra. Do seu tamanho.
-Ahan...
-E a cabeça foi arrancada.
Aquilo estava ficando repulsivo, então ele disse que uma noite estava transando com ela quando o homem marcado chegou.
- E o que você fez? – perguntei.
- Me escondi.
- Como?
- Você não vai querer saber.
-Preciso saber de tudo.
- Me escondi dentro dela.
Eu já tinha ouvido falar desse tipo de perversão sexual dos Liliputianos, que devido ao seu tamanho entram na boceta da mulher e ficam lá dançando. Dizem que elas ficam loucas. Também já ouvi falar de mulheres que tem compulsão por enfiar objetos na boceta, e de homens que gostam de se enforcar enquanto estão batendo punheta para aumentar o tempo do orgasmo. Essas taras não me assustavam, e embora fosse irrelevante, perguntei com toda a entonação de perícia um detalhe sórdido que me despertou de certa forma o interesse.
-Você se escondeu no cu ou na boceta?
E ele respondeu no cu.
- Certo. Quero a discrição física dela. Tudo. Cor dos olhos, do cabelo, altura, seios. Também quero os nomes dos clubes em que ela trabalha e do novo cafetão dela.
- Se você quiser, pode encontrá-la ainda hoje em um clube chamado Inferno da luz vermelha, mas lá é muito barra pesada e não sei se eles aceitam clientes humanos.
- Você ouviu isso Tarso? Não aceitam seres humanos.
- Sim senhor. Vamos tomar mais uma dose de Whisky aqui e conseguimos chegar lá antes das duas da manhã.
Eu sempre gostei do meu trabalho. Sempre gostei de dar tiros, e de me infiltrar no submundo estorquindo drogados e negociando com putas, prendendo bandidos, executando pessoas que em geral fizeram mal a outras pessoas. Tudo sempre dando muito certo, ganhando muito dinheiro. Mas as coisas mudaram muito, acho que esse ano completa dez anos desde a nova ordem mundial. Puta que pariu dez anos desde que o mundo se tornou um caos, e descobrimos que não sabíamos nada de nossa natureza. Dez anos que eu descobri as coisas não giram apenas em torno do dinheiro, que existem causas muito maiores que o dinheiro, existe uma força interna, uma mágica, um poder que o dinheiro não pode comprar. Aquele homem marcado tem esse poder, e eu quero pega-lo. Foi muito estranho e gratificante para mim, o dia em que percebi que não era mais corrupto, que não queria mais ferrar meus semelhantes, eu deveria protegê-los. Servir à lei e a ordem, e abdicar dos prazeres mundanos e das coisas materiais que sempre prezei. Carros, mulheres, casa em muriqui, festa de final de ano, ser conceito na rua. De certa forma, acho que abdicar desses prazeres efêmeros fez com que eu me sentisse cada vez mais próximo de toda essa magia, de todo esse poder e a fantasia de quem sabe um dia me tornar um deles. Um homem marcado.
Só me sobrou minha arma, o álcool e minha humanidade.


Chegamos no tal puteiro do inferno e nossa entrada não foi barrada. De fato o lugar era como uma câmara infernal. Era soturno e repleto de luzes todas vermelhas. A fumaça não permitia enxergar além da palma da mão e o cheiro de formol faria qualquer coisa querer vomitar. Era horrível, haviam cabeças espalhadas por todos os lados. Cabeças penduradas, cabeças no bar, rostos sem olhos, outro preso pela língua. E não eram apenas cabeças, haviam dezenas de pedaços de corpos espalhados por todo o local.
Fui correndo para o bar pedir um Martini duplo, e acabei esmagando uma mão no caminho.
- Puta que Pariu estamos no meio de uma salada de restos de corpos humanos!
Tarso estava assustado também, havia um torso tentando se arrastar no chão ao nosso lado, uma perna montada em cima de um braço e mais algumas costelas, que engendravam uma espécie de inseto, pedaços pulando, pedaços se arrastando por cima de nossos pés, e umas cinco mulheres humanas dançando para essas coisas no palco. Mulheres bonitas dançando funk. Cerveja e chopp gelado, música eletrônica caos sonoro de centenas de pedaços falando alto e fumando.
A atendente do bar disse que não havia Martini e então eu pedi uma cerveja. Tarso me acompanhou. Perguntei a ela sobre Danielle, e ela disse que era setenta Reais. Mais o quarto. Então eu disse que só queria vê-la e ela falou que iria se apresentar em vinte minutos.
Enquanto ela falava vi um pé se arrastando com o que parecia ser um pedaço de uma mão de quatro três dedos, eles se fundiam como que se estivessem trepando, mas acho que estavam ajudando-se a se locomoverem.
- Caralho! Acho que estou tendo um delirium tremens.
- Fique calmo senhor, eles parecem que estão se divertindo. – Tarso sempre foi mais controlado emocionalmente do que eu.
Pedi outra cerveja e tentei aproveitar a situação. A menina do bar me atendeu e percebi que ela também não tinha um braço.
Havia uma cabeça apoiada no bar me olhando, e era evidente que ela queria conversar. Talvez ele soubesse de alguma coisa. Nos aproximamos e ela nos ofereceu outra cerveja. A cabeça tinha uma voz muito aveludada e falava um português perfeito.
- Fiquem a vontade rapazes, já percebi que você não costuma vir aqui. Aqui é o lugar onde os imortais costumam vir beber e falar merda, enfim, se divertir. Você sabe, muitas vezes mesmo os imortais sofrem acidentes , como se chama? Fatais? E como seus corpos se negam a morrer, eles ficam por ai, despedaçados sem ter aonde ir.
- Compreendo.
- Um cai do prédio, o outro é atropelado, outro foi fuzilado. É um mundo muito louco lá fora. Você acredita que eu fui esquartejado por uma prostituta enquanto dormia. Ta vendo aquele pau ali? _ Ele apontou para um pedaço de pele que pude distinguir era um saco se rastejando perto do palco. – Aquele é o meu pau. Antes eu tinha que ficar me rastejando pelas ruas como um marginal, agora posso ficar aqui bebendo cerveja, enquanto converso com meus amigos e fico vendo meu pau foder uma mulher. Por isso montei este estabelecimento e está dando muito certo. Sempre trabalhei com clubes noturnos e o segredo é a cerveja gelada. Cerveja gelada e mulheres bonitas. Afinal, vocês são especiais ou são humanos?
- Somos humanos.
- Olha, que maravilha. Nunca vejo de vocês por aqui. A cerveja esta liberada por minha conta. Agora olhem que delícia.
Olhamos para o palco e a dançarina tinha pego o pau que estava se rastejando no chão e o colocava na boca enquanto dançava. Outra vez ficamos vendo aquele saco murcho só que dessa vez pendendo para fora da boca da moça.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Os suburbios (pt1)

Estávamos investigando um caso de homicídio. Nos tempos em que vivemos hoje homicídios são coisas que passam desapercebidas, porem este, era um caso diferente. Segundo testemunhas um homem marcado havia matado um homem do governo e as autoridades tinham o dever de mostrar que estavam fazendo algo, então nos mandaram para bairros suburbanos e nos instruíram que se não encontrássemos nenhuma pista era melhor não voltar para a corregedoria. Meu nome e Saulo e este é meu parceiro Tarso, somos detetives a caminho de nosso dia do juízo final. Desde o dia da nova ordem mundial dois seres humanos penetrarem os subúrbios deste pandemônio de cidade é uma sentença de morte. Mas nós éramos durões, e estávamos armados.
- Para aonde nó vamos senhor?
- Vamos pela linha vermelha. Mas antes encosta naquele posto. Preciso comprar uma garrafa de Whisky.
- Burbon, senhor?
- Nada. Do jeito como as coisas estão, vou ter que beber o Titchers.
- Excelente escolha senhor, para uma missão suicida...
- Ah, vai se foder.
Eu adoro meu parceiro, nós nos xingamos o tempo inteiro e também já acertamos as contas com o crime muitas vezes juntos, se é que vocês me entendem. Mas quando a ordem era de prender ou matar, seguíamos a lei cegamente como um inseto é atraído pela luz.
Bebemos metade da garrafa do Titchers e chegamos em Madureira. O whisky já me deixara mais corajoso e a arma se posicionava o tempo inteiro ao alcance da mão. Estávamos tensos, aquilo era terra de ninguém.
Havia um cara que ligou para o disque denuncia, dizendo que conhecia alguém que testemunhou o crime, um parceiro que se sentiu traído talvez e que estava disposto a servir de informante para a polícia. Concordamos de encontrá-lo em Madureira, pois de lá ele nos levaria em um bar aonde estava o tal informante.
Encontramos o ser que fez a denuncia e ele era um crustáceo. Tipo de coisa muito comum aqui no Brasil após a nova ordem mundial. Eles dominaram as praias com suas barracas de pedras e suas garras metálicas. Se eu estivesse andando na rua sozinho, não pararia para falar com esse cara, o que não era o caso. Ele queria ajudar. Este andava sobre duas pernas, tinha uma cabeça enorme e fumava cigarro. Parece que o olfato dessa galera é muito bom e ele me perguntou se eu estava bêbado, então perguntei se ele era uma lagosta, coisa que eu sei que os ofende como um japonês que é confundido com chinês. Resolvemos nossas dissidências, e ele disse; - Vamos. Vou levar vocês até o informante.
Entramos em um clube de strip acompanhados do crustáceo até o bar aonde se encontrava o homem, e lá estava ele. Era um Liliputiano. Liliputianos são homens iguais aos seres humanos, mas com uma pequena diferença, eles medem em média vinte centímetros, ou seja, ele é do tamanho do meu sapato. Seu nome era Antonio terceiro e estava disposto a falar.
- Estive com uma garota que trepa com um desses paranormais conhecidos como a casta dos homens marcados. – Disse o Liliputiano.
- O caranguejo aqui disse que você esteve com um desses homens, e não que você fode a mulher dele, o que está acontecendo aqui?
- não, não, você não entendeu, é muito arriscado falar sobre isso dessa maneira.
Então coloquei a palma da mão aberta sobre a mesa e ele subiu. Em seguida, ergui a mão até meu rosto para que a conversa ficasse somente entre nós dois.
- Cuidado com sua respiração, ou vou acabar ficando bêbado.
- Pare de conversa e me conte logo o que você sabe sobre esse cara, não consta nos registros da policia que eles habitem o Brasil.
- Hum, você que pensa, existem vários deles no mundo todo.
O Liliputiano me contou que estava tendo um caso com uma prostituta que se apaixonou por ele e queria largar a vida profissional. Eles passavam muitas horas do dia juntos conversando sobre os dramas e os privilégios de sua profissão, e em uma dessas conversas, ela contou que possuía uma clientela muito especial, ligada a algum tipo de seita, e que nessa seita seres humanos evocavam um desses homens marcados e ofereciam a ela como reverencia para o “Semi deus” como eles o chamavam.
- Então há uma corrupção por trás dessa porra?
- Sim, sim, eram aristocratas de todas as fratrias; juízes, advogados, políticos, bicheiros.
-Sabe alguma coisa sobre a associação de trafico de bebês?
-Apenas que eles vem da Croácia.
- Entendo. E essa moça. Como se chama?
-Danielle. Ela trabalhava no circo. Mas isso não é tudo.

sábado, 9 de outubro de 2010

Jardim zoológico da paixão.


Paixão fantasmagórica. Alegoria dos corpos. Jardim zoológico dos sentidos. Estar junto a alguém nos dias de hoje é definitivamente um espetaculo pavoroso. Quero dizer, nessa relação a dois, que é o principal? Supoem-se que por se tratar de minha própria vida, que eu ocupe esse lugar. Então, já que sou o personagem principal de minha vida, que papel representa meu parceiro ou parceira nessa peça? O de quadiovante? Então vejo o cartaz da peça estampado em um otdoor que diz; "Jardim Zoológico do amor. Uma tragédia balzaquiana sobre um casal do sec XXI que se amam e com isso tem de aprender a domar seus animais internos. Amor, sexo, traição, confiança e desespero nesse clássico que vai entrar para os anais da história do teatro. Estrelando B.A (Ele) e grande elenco (Ela)".
Jardim zoológico do amor. Esse seria o nome obra de nossas vidas. Por essa alma que a este corpo está aprisionada, eu inevitavelmente seria o personagem principal, e ela, minha mulher, minha parceira, seria representada por um grande elenco. Seu nome nem apareceria no cartaz , seria somente anunciada como um grande elenco. Em uma peça trágica como essa, só haveria lugar para um nome. Caso houvessem dois, não haveria necessidade para montar um espetaculo sobre os dramas que vive um casal que tem de lutar para domesticar sua hiena interior comendo todos os dias a mesma ração humana, e dormindo todas as noites na mesma cama.
Orgãos sexuais em volta de casa. Ânus que faz mais belas promessas. Músculo pélvico amarrado a uma palmeira. Juke box. Espasmos na areia da perseguida. Calafrios ao pensar que pela origem embriológica é a mesma e que por isso o orgasmo é igual no homem e na mulher.
Bom. É assim que me sinto. Como uma hiena que foi arrancada de seu habitat natural para viver em cativeiro com outra experiência..
Quando nos conhecemos, nos topamos nos jardins da paixão, e por lá permanecemos por uns tempos em bioenergia. Havia aquela sensação de livre esxpressão dos sentimentos emocionais e sexuais no relacionamento. Agora nos mudamos para o jardim zoológico do amor. Por que tem que ser assim? A resposta sexual. Me sinto seguro o suficiente para não duvidar do que sinto por ela, e acreditar que minha hiena interna está domada. Mas por quanto tempo? Repito a questão. Por que tem que ser assim? Wilhen Reich conseguiu após horas de espera se encontrar com Freud, o até então discípulo entregou a seu mestre sua primeira obra escrita. " A gene da neurose". Freud pega o livro com as duas mão. Avalia o tamanho generoso do volume e lhe faz somente uma observação; - Por que tão grande?
Confesso aqui, que assim como Reich, tive uma vida sexual um tanto turbulenta. Desde cedo vivendo no interior, a vida na fazenda me ensinou coisas sobre a natureza que não se aprende dentro de um apartamento. Aos cinco anos um de meus passa tempo preferidos, era assistir a cópula dos animais. Esse hábito se estendeu para além, e comecei espionar os outros moradores do local em seus movimentos diários e descompromissados de vai e vem. Eu espiava todos os amantes em nossa grande propriedade. Até mesmo minha própria mãe. Deixo para descrever os pormenores desse episódio conflitante edípico/Voyerismo mais tarde.
O fato é que com doze anos, um pouco antes de meu contato com meu primeiro par de tesouras, eu já havia perdido a virgindade com uma das empregadas da casa. Outros detalhes sórdidos sobre a minha precoce vida sexual serão descritos no vai e vem dessas páginas no decorrer dos fatos.
Acreditas mesmo que uma fera pode ser dominada? Eu digo, a paixão?Ja tentei hipnose e psicoterapia. Me sinto surpreso com os sentimentos que me acometem diariamente e a conclusão que chego é que sou um estranho. Confraternizar-se com o espírito, beber o vinho dos santos, abrir a jaula dos macacos. Corpo físico.Pegar aquele telefone. Corpo físico. Ligar para aquele número e dizer para aquele nome que "Olha, sou eu. Não aguento mais!" Faça o que estiver afim. Dance com o Diabo na lua cheia se precisar, você está livre". Corpo físico.
Mas eu... eu... eu não consigo...
Anorgasmia.
É claro que ela está livre. Não nascemos no Egito. Somos seres livres desde o dia em que nascemos. É impressionante como até minha linguagem é afetada por esse neoplatonismo cristão que banha minha alma em culpa e me faz sofrer. É óbvio que ela é livre. Quero dizer, se ela quiser, é livre para fazer o que bem entender, e quem sou eu, para impedi-la? Euforia.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A negociação de arquivos Bob Marley no Rio de janeiro

Depois tudo aconteceu conforme o prometido. Tão pouco eu terminava o corte moças seguiam com os novos rumos de suas vidas. Os cabelos ditavam tendências, os clientes enlouqueciam e os salões ficavam lotados. As mulheres histéricas se amontoavam aos bandos e ofereciam suas almas se fosse preciso por um Chanel ou um repicado. Com o tempo, é claro que o buxixo chegou até as classes mais elevadas e então comecei a cortar os cabelos da elite. Sempre daquele jeito; quanto maior a ambição da cliente, geralmente mais escura e exótica a sua aura, e consequentemente, o seu novo cabelo.
Apesar de tudo isso, eu me mantive humilde como a batata-da-terra. A fama nunca me subiu a cabeça, e os investimentos em bebidas e ansiolíticos não param de crescer.
A praia estava deprimente. não sei exatamente o por que de eu estar aqui. Pessoas sujas e mal educadas falam aos berros e ficam babando sobre as bundas que se encontram em toda a parte. De fato, as bundas eram maneiras. Vejo uma gostosa que também tem suas tatuagens esverdeadas como as minhas, seu biquini encravado no cú. Ela se aproxima, e ao menor dos movimentos bruscos na areia seu corpo é sacudido gerando um grande tremor na terra de movimentos tectônicos. Isso não é mutação, é mal formação. Diz uma das vozes em minha cabeça. Ela se senta , saca um baseado do maço de cigarros e começa a fumar com um grupo de amigas. Também quero fumar mas não sei o que dizer. Ela passa o baseado que fica grudado na boca de sua amiga. Me levanto e fico me alongando perto do grupo para ver se alguma delas me reconhece. O famoso cabelereiro. Aquele de sexualidade ambígua. Uma delas cospe na mão e esfrega a saliva que chega a transbordar para que a coisa fique acesa por mais tempo. Elas não me reconhecem. Tiro os óculos escuros e dou uma risada de uma de suas piadas como alguém que acidentalmente ouviu a conversa do grupo. Elas não reparam. O baseado chega na ponta e se apaga.

Como um muçulmano, recolho minha canga do Bob Marley e realizo a peregrinação para perto de outro grupo de fumantes. Dessa vez são dois rapazes que também fumam exibindo suas tatuagens e conversam sobre a India. Simpatizo com eles e me introduzo bem direto.
- Fala ae galera, rola deu dar um dois com vocês?
- Claro cara, deixa só o meu parcero fumar que o beck é dele e você fuma também.
A dupla era agradável. Eram viajantes. A conversa era sobre a erupção do Krakatoa, um vulcão a oeste de Java. Logo evoluiu para o tipo de maconha que se fuma na indonésia, e finalmente chegamos até a pena de morte.
- Será que a gente não podia mudar de assunto não? Esse negócio de pena de morte, sei lá. me deixa meio assim ... me deixa meio nervoso.
- Pode crê cara. "fffuuu..." Mó vacilação... 'fffuuuu'... essa parada de pena de morte na indonésia. "fffuuuu...." Nego lá só queria fumar bagulho bom e curtir.
- Essa é a parada.
- Tipo, na Hollanda, a gente só fumava do verde. Todo dia. Mó astral cara. Igual essa tua canga ae do Bob Marley.
Meu Daimon interior mais uma vez estava certo. Esses moleques eram maneiros. Conversamos sobre diferentes tipos de maconha e religião do mundo inteiro. Traçamos um paralelo entre as plantações de canabis sativa na América do norte, e sua estreita ligação com os cultos evangélicos que são predominantes na região. Cocluimos, que devido ao fuso horário, o tão odiado presidente Bush deveria estar acendendo um baseadão nesse exato momento em uma de suas enormes propriedades no Texas.
Enfim, o marasmo da droga. A quietude. Algo que se faça curtir essa situação tropical que agora me encanta a alma. Conversar com estranhos, chegar as alturas da iluminação e da revolução da dialética. - Hummm... Krakatoa. Ser embalado pelo som das palavra desconhecida, ouvir a onda do mar. Mente quieta. Passividade e recptividade. Paz divina. Forma elevada de pensar e de não pensar. Recordar e re-descobrir o motivo pelo qual tomei aquele avião do Espirito Santo e vim para o Rio de Janeiro. Auto-observação e compreensão. Avaliar cada pensamento que chega a mente e considerar que toda idéia tem dois polos, negativo e positivo. Esse é o momento em que todas aquelas bundas se viram para mim, e eu fico contente de estar aqui. Não vacilar. Curtir o momento. Aliás, negócio bom esse de Java, sem bad trip, nenhuma tempestade. Uma dupla de Pms se aproxima e rodam um grupo que fumava em um cachimbo. O símbolo da polícia militar intimamente ligado com o da magia negra naquele momento. No cahimbo, um chape de um duende. Ningem se desespera. Ta tudo uma maravilha. Princípio pensante sob controle. Intimidade de contato com aquele "Aquilo" descrito por Jack Korouack. Eu chamo de "Verdade". A cada instante uma nova descoberta, uma cor, um detalhe. Cada momento é absoluto... vivo... significante.... e de repente... o silencio. Vamos agora colar nossas mão no peito em forma de um coração e entoar o mantra "Om". "AAAAUUUUUMMMMM". O som do universo, o conhecimento dos vedas. Vigília, sono, e sonho. Sonho... Silencio. Vou abrindo os olhos lentamente, e vejo que tudo continua lá. O sol, o mar, as bundas. Então, novamente o silencio .............................................................................................................
- Pode crer, Krakatoa...
- Ae cara, você não é aquele maluco que corta o cabelo de geral?
Em meu transe, percebo que as palavras são dirigidas a mim.
- Sim, sou eu mesmo.
- Porra, pode crer. Satisfação cara. Se ligou Brow? É ele que corta o cabelo daquela mulherada toda. Tu ta bombando na mídia.
- Pode crer. Lança o corte novo da Krakatoa.
Algumas risadas.
Foneticamente o nome não agradaria muito, mas eu ja imaginava como seria.
"AAAAAAAAUUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMM"